19 de out de 2017

UM POETA GAÚCHO

A nossa coluna QUARTA É DIA DE RF (acesse o blog www.literaturalimite.com.br) traz hoje a presença do poeta gaúcho Carlos Soares, que figura na história da poesia do Rio Grande do Sul como umas das vozes mais importantes pós geração do Quintana. Sua poética, como todo grande fazer poético, concentra-se em alguns pouquíssimos temas, mas os mais relevantes, da natureza humana, que são a própria essência da vida: a emoção, claro, e as investigações filosóficas que fazemos a respeito da morte, da passagem do tempo, da permanência ou não no indivíduo da lucidez ou da loucura, e assim por diante.
         Lucidez e loucura no seu sentido mais amplo e não apenas do ponto de vista médico-científico. Lucidez e loucura que define a humanidade atualmente, muito mais do que estes dogmas inventados pela reles política de direita e esquerda; lucidez e loucura como esquemas comportamentais que afetam a moral e o comportamento individual e expandem-se até o extremo dos comportamentos coletivos das massas, e dos nefandos manipuladores destas mesmas massas que são os líderes religiosos, os ideólogos dos partidos políticos, os pretensos sábios, doutos, e filósofos que infestam as cátedras escolares, os bancos acadêmicos, as redações e direções da grande mídia, e até mesmos pequenos eunucos que proliferam nas redes sociais deitando falação que nada mais são que um amontoado inqualificável de bobagens etéreas.

         Ele, o poeta Carlos Soares, é o cara desta quarta feira:
                            
                                          ASTUTO OUTONO
                                             Carlos Soares
                            O outono é uma grande tartaruga
                            que esqueceu o caminho de voltar:
                            estaca um pouco, um pouco o passo estuga,
                            tornando novamente a caminhar.
                            Seu grande casco para nós aluga,
                            nós que tanto gostamos de sonhar!
                            Porém, sem mais nem menos, põe-se em fuga,
                            ora voando, ora devagar...
                            Para enfeitar o seu trajeto eterno,
                            para agradar a seu irmão, o inverno,
                            soltando folhas amarelas vai,
                            e nós nem vemos lá de cima dela,
                            que cada folha pífia e amarela,
                            da nossa árvore da vida é que cai...

15 de out de 2017

UMA CANÇÃO TRISTE PARA TIA HELLEY

         15 de outubro, Dia do Professor, é sempre uma data inesquecível para quase todos nós. Difícil alguém que não lembre aquele seu ou sua mestre ou mestra, principalmente os da infância. Tenho uma lista inumerável: Maria Luiza, Olga, Edelves, Eunice, Zé Alberto, e os padres Manoel, Zé Maria, Othon, Bosco, Melo, estes últimos durante a minha estadia no Seminário de Santo Antônio.
         Assim, em edição extraordinária, a coluna QUARTA É DIA DE RF (acesse o blog www.literaturalimite.com.br) abre espaço para a colaboração do excelente poeta Viriato Gaspar que comparece aqui publicando uma poesia dedicada a uma professora inesquecível, mas que serve também para homenagear todas as mestras do mundo.

                       UMA CANÇÃO TRISTE PARA TIA HELLEY

(Em memória da professora Helley
Abreu Batista, de Janaúba - Minas Gerais,
que personificou e dignificou toda a classe dos professores brasileiros)

Trago-te apenas lágrimas, singelas,
Pequenos corações de cinzas frias.
Uma vontade de não ver o dia
Despejar seu clarão pelas janelas.
Trago-te apenas duas mãos, vazias,
Queimadas pelo horror que nos carcome.
Mãos sujas dessa dor que nem tem nome,
Porque nos come a fome em que se ardia.
Te trago uma braçada de silêncios,
Coragem de lutar por entre as chamas,
Contra os fluidos do mundo e suas tramas
De loucura e de dor, de inferno e gana.

Te trago uma canção, pobre lembrança,
De um tempo tão feroz, de um mundo negro,
Capaz de arder seus ódios nas crianças
E sopitar venenos nos sossegos.

Não vim pra te acordar, trazendo flores,
Nem vim pra lamentar ires tão cedo.
Vim te trazer o mar do nosso medo
De nunca conseguir ser como foste.

Viriato Gaspar
15/10/2017

11 de out de 2017

CEGO ADERALDO X ZÉ PRETINHO

Talvez a maioria das pessoas, os engajados e militantes partidários, os puxa-sacos, os cabos eleitorais estejam frenéticos, ansiosos, doidinhos para que já comece a campanha eleitoral que vai eleger mais um salvador da pátria. Como sei que isto é pura fantasia, demência, loucura, pois a transformação leva tempo, no nosso caso, décadas. Isto se iniciarmos agora um processo filosófico e educativo de desemburrecimento, de pensar com clareza e enxergar o labirinto em que nos metemos e do qual não conseguimos sair. Sinceramente, com estes candidatos que estão aí, principalmente os palhaços do Congresso a tendência é a coisa ir de mal a pior.
            Assim, resolvi trazer pra vocês um pouco de distração mental com a Literatura de Cordel. Uma das riquezas culturais do Nordeste. Lembro de quando era criança, em São Domingos do Maranhão, na Praça Getúlio Vargas aonde funcionava a Feira até o final dos anos sessenta.
            E ali na Feira, os cantadores eram uma atração à parte do comércio de cereais, frutas e legumes. Nos reuníamos em volta deles, que com suas violas afinadas nos presenteavam com aquele mundo fantástico que saía de suas gargantas, e depois a gente podia comprar aqueles livrinhos impressos em papel barato, às vezes até com manchas da tinta, e, entre estes, nunca esqueci da PELEJA DO CEGO ADERALDO X ZÉ PRETINHO. Uma história bem nossa, que fala dos nossos costumes, de lugares que conhecemos e do nosso povo: Angico, Pimenteira, Campo Maior; José Carpinteiro, Manoel Casado, Chico Lopes; café com bolacha, galinha com queijo e doce.
            Outro cordel que não apaguei da memória foi o de CARLOS MAGNO E OS 12 PARES DE FRANÇA, esse sobre história universal, no tempo das Cruzadas que os cristãos empreenderam contra os mouros (árabes), que haviam invadido a Europa, quase como agora, e 60 anos depois, ainda lembro destes versos: “”Eram doze cavaleiros / homens muito valorosos / destemidos e animosos / entre todos os guerreiros / e como fosse Oliveiros / um dos pares de fiança / que a sua perseverança / venceu todos os infiéis / foram uns leões cruéis / os doze pares de França”.

            A coluna QUARTA FEIRA É DIA DE RF, do blog LITERATURA LIMITE (acesse www.literaturalimite.com.br) traz hoje o cordel de autoria do poeta Firmino Teixeira do Amaral, a incrível e fantástica peleja entre o Cego Aderaldo e Zé Pretinho.
         Aderaldo Ferreira de Araújo (Crato, 24 de junho de 1878 – Fortaleza, 29 de junho de 1967), mais conhecido como "Cego Aderaldo" foi um poeta popular cearense que se destacou por seu raciocínio rápido improvisando rimas e repentes.
         O cego Aderaldo descobriu o dom da rima em Quixadá, pouco depois de perder a visão em um acidente. Segundo o próprio, a descoberta ocorreu quando teve um sonho em versos. Quando sua mãe faleceu, cego Aderaldo decidiu viajar pelo sertão nordestino fazendo suas rimas.
         Em 1914, disputou um desafio de rimas com Zé Pretinho (conhecido repentista do Piauí). Sua desenvoltura no desafio o consagrou definitivamente. O duelo dos dois poetas foi registrado por Firmino Teixeira do Amaral no cordel A peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho.
         Cego Aderaldo morreu em Fortaleza aos 89 anos, sem nunca ter casado, criando porém 24 filhos adotivos.

Apreciem meus leitores
uma forte discussão
que tive com Zé Pretinho
um cantador do sertão
o qual no tanger do verso
vencia qualquer questão
Um dia determinei
a sair do Quixadá
uma das belas cidades
do Estado do Ceará
fui até o Piauí
ver os cantores de lá
Hospedei-me em Pimenteira
depois em Alagoinha
cantei no Campo Maior
no Angico e na Baixinha
de lá tive um convite
para cantar na Varzinha
Quando cheguei na Varzinha
foi de manhã bem cedinho
então o dono da casa
me perguntou sem carinho:
cego, você não tem medo
da fama do Zé Pretinho?
Eu lhe disse: não senhor
mas da verdade eu não zombo
mande chamar esse preto
qu`eu quero dar-lhe um tombo
ele vindo, um de nós dois,
hoje há de arder o lombo
O dono da casa disse:
Zé Preto pelo comum
dá em dez ou doze cegos
quanto mais sendo só um;
mandou um macumanzeiro
chamar José do Tucum
Chamou um dos filhos e disse:
meu filho, você vá já
dizer a José Pretinho
que desculpe eu não ir lá
e ele como sem falta
à noite venha por cá
Em casa do tal Pretinho
foi chegando o portador
foi dizendo: lá em casa
tem um cego cantador
o meu pai manda dizer
que vá tirar-lhe o calor
Zé Pretinho respondeu:
bom amigo é quem avisa
menino, dizei ao cego
que vá tirando a camisa
mande benzer logo o lombo
que eu vou dar-lhe uma pisa
Tudo zombava de mim
eu ainda não sabia
que o tal José Pretinho
vinha para a cantoria
às cinco horas da tarde
chegou a cavalaria
O preto vinha na frente
todo vestido de branco
seu cavalo encapotado
com um passo muito franco
riscaram de uma só vez
todos no primeiro arranco
Saudaram o dono da casa
todos com muita alegria
o velho bem satisfeito
folgava alegre e sorria
vou dizer o nome do povo
que veio pra cantoria
Vieram o Capitão Duda
Tonheiro e Pedro Galvão
Augusto Antônio Feitosa
Francisco Manoel Simão
senhor José Carpinteiro
Francisco e Pedro Aragão
O José da Cabeceira
e seu Manoel Casado
Chico Lopes, Pedro Rosa
e Manoel Bronzeado
Antônio Lopes de Aquino
e um tal de “Pé Furado”
José Antônio de Andrade
Samuel e Jeremias
senhor Manoel Tomás
Manduca João de Ananias
e veio o vigário velho
cura de três freguesias
Foi dona Meridiana
do Grêmio das Professoras
essa levou duas filhas
bonitas e encantadoras
essas eram na Igreja
as mais exímias cantoras
Foi também Pedro Martins
Alfredo e José Raimundo
senhor Francisco Palmeira
e João Sampaio Segundo
e um grupo de rapazes
do batalhão vagabundo
Levaram o negro pra sala
e depois para a cozinha
lhe ofereceram um jantar
de doce, queijo e galinha
para mim veio um café
com uma magra bolachinha
Depois trouxeram o negro
e colocaram no salão
assentado num sofá
com a viola na mão
junto a uma escarradeira
para não cuspir no chão
Ele tirou a viola
dum saco novo de chita
e cuja viola estava
toda enfeitada de fita
ouvi as moças dizendo:
grande viola bonita!
Então para me sentar
botaram um pobre caixão
já velho, desmantelado
desses que vêm com sabão
eu sentei, ele envergou
e me deu um beliscão
Eu tirei a rabequinha
dum pobre saco de meia
já meio desconfiado
por estar em terra alheia
ouvi as moças dizendo:
meu Deus, que rabeca feia!
Um disse a Zé Pretinho:
a roupa do cego é suja
bote três guardas na porta
para que ele não fuja
cego feio assim de óculos
só parece uma coruja
Dissera o capitão Duda
como homem mui sensato:
vamos fazer uma bolsa
botem o dinheiro no prato
que é mesmo que botar
manteiga em venta de gato
Disse mais: eu quero ver
Pretinho espalhar os pés
e para os dois cantadores
tirei setenta mil réis
mas vou inteirar oitenta
da minha parte dou dez
Me disse o capitão Duda:
cego, você não estranha
este dinheiro do prato
eu vou lhe dizer quem ganha
pertence ao vencedor
nada leva quem apanha
Nisso as moças disseram:
já tem oitenta mil réis
porque o capitão Duda
da parte dele deu dez
se encostaram a Zé Pretinho
e botaram mais três anéis
Então disse Zé Pretinho:
de perder não tenho medo
este cego logo apanha
falo sem pedir segredo
tendo isto como certo
botou os anéis no dedo
Afinemos os instrumentos
entremos em discussão
o meu guia disse a mim
o negro parece o cão
tenha cuidado com ele
quando entrar em questão
Eu lhe disse seu José
sei que o senhor tem ciência
parece que és dotado
da Divina Providência
vamos saudar o povo
com a justa excelência
P – Sai daí, cego amarelo
cor de couro de toucinho
um cego da tua forma
chama-se abusa vizinho
aonde eu botar os pés
cego não bota o focinho
C – Já vi que seu Zé Pretinho
é um homem sem ação
como se maltrata outro
sem haver alteração
eu pensava que o senhor
possuísse educação
P – Esse cego bruto hoje
apanha que foca roxo
cara de pão de cruzado
testa de carneiro mocho
cego, tu és um bichinho
que quando come vira o coxo
C – Seu José, o seu cantar
merece ricos fulgores
merece ganhar na sala
rosas e trovas de amores
mais tarde as moças lhe dão
bonitas palmas de flores
P – Cego, eu creio que tu és
da terra do sapo sunga
cego não adora Deus
o Deus de cego é calunga
aonde os homens conversam
o cego chega e resmunga
C – Zé Preto não me aborreça
com o teu cantar ruim
o homem que canta bem
não trabalha em verso assim
tirando as faltas que tem
botando em cima de mim
P – Cala-te, cego ruim
cego aqui não faz figura
cego quando abre a boca
é uma mentira pura
o cego quanto mais mente
inda mais sustenta e jura
C – Este negro foi cativo
por isso é tão positivo
quer ser na sala de branco
exagerado e ativo
negro de canela fino
todo ele foi cativo
P – Dou-te uma surra
de cipó e urtiga
te furo a barriga
mais tarde tu urra
hoje o cego esturra
pedindo socorro:
sai dizendo: eu morro
meu Deus, que fadiga!
por uma intriga
eu de medo corro
C – Se eu der um tapa
num nego de fama
ele come lama
dizendo que é papa
eu rompo-lhe o mapa
lhe rasgo de espora
o negro hoje negro chora
com febre e com íngua
eu deixo-lhe a língua
com um palmo de fora
P – No sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o coro eu tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz mais duma mala
C – Negro, és monturo
molambo rasgado
cachimbo apagado
recanto de muro
negro sem futuro
perna de tição
boca de purrão
beiço de gamela
venta de moela
moleque ladrão
P – Vejo a cousa ruim
o cego está danado
cante moderado
que não quero assim;
olhe para mim
que sou verdadeiro
sou bom companheiro
canto sem maldade;
eu quero a metade
cego, do dinheiro
C – Nem que o negro seque
a engolideira
peça a noite inteira
qu`eu não lhe abreque
mas este moleque
hoje dá pinote
boca de bispote
venta de boeiro
tu queres dinheiro
eu dou-te chicote
P – Cante mais moderno
Perfeito e bonito
como tenho escrito
cá no meu caderno
sou seu subalterno
embora estranho
creio que apanho
e não dou um caldo
lhe peço, Aderaldo
reparta o ganho
C – Negro é raiz
que apodreceu
casco de judeu
moleque infeliz
vai pra teus país
senão eu te surro
dou-te até de murro
te tiro o regalo
cara de cavalo
cabeça de burro
P – Fale de outro jeito
com melhor agrado
seja delicado
cante mais perfeito
olhe, eu não aceito
tanto desespero
cante mais maneiro
com verso capaz
façamos e paz
e reparta o dinheiro
C – Negro careteiro
eu rasgo-te a giba
cara de guariba
pajé feiticeiro
queres dinheiro
barriga de angu
barba de quandu
camisa de saia
te deixo na praia
escovando urubu
P – Eu vou mudar a toada
pra uma que mete medo
nunca encontrei contador
que desmanchasse esse enredo
é 1 dedo, é 1 dado, é um dia
é um dia, é um dado, é 1 dedo
C – Zé Preto, este teu enredo
te serve de zombaria
tu hoje cegas de raiva
o diabo será teu guia;
é um dia, é um dado, é 1 dedo
é 1 dedo, é 1 dado, é um dia
P – Cego, respondeste bem
como tivesse estudado
eu também da minha parte
canto verso aprumado;
é 1 dado, é 1 dedo, é 1 dia
é 1 dia, é 1 dedo, é 1 dado
C – Vamos lá, José Pretinho
que eu já perdi o medo
sou bravo como um leão
sou forte como penedo
é 1 dedo, é 1 dia, é 1 dado
é 1 dado, é 1 dia, é 1 dedo
P – Cego, agora puxa uma
das tuas belas toadas
pra ver se estas moças
dão algumas gargalhadas
quase todo povo ri
só as moças estão caladas
C – Amigo José Pretinho
eu não sei o que será
de você no fim da luta
porque vencido já está;
quem a paca cara compra
a paca cara pagará
P – Cego, estou apertado
que só um pinto no ovo
estás cantando aprumado
e satisfazendo ao povo
este seu tema de paca
por favor diga de novo
C – Disse uma e digo dez
no cantar não tenho pompa
presentemente não acho
quem o meu mapa rompa;
paca cara pagará
quem a paca cara compra
P – Cego, teu peito é de aço
foi bem ferreiro que fez
pensei que o cego não tinha
no  verso tal rapidez
cego, se não for massada
repita a paca outra vez
C – Arre com tanta pergunta
deste negro capivara
não há quem cuspa pra cima
que não lhe caia na cara
quem a paca cara compra
pagará a paca cara
P – Agora, cego, me ouça
cantarei a paca, já
tema assim é um borrego
no bico dum “carcará”
quem a cara cara compra
caca caca cacará
Houve um trovão de risadas
pelo verso do Pretinho
o capitão Duda disse:
arreda pra lá, negrinho
vai descansar teu juízo
que o cego canta sozinho
Ficou vaiado o Pretinho
aí eu lhe disse: me ouça
José, quem canta comigo
pega devagar na louça
agora o amigo entregue
o anel  de cada moça
Desculpe, José Pretinho
se não cantei a seu gosto
negro não tem pé, tem gancho
não tem cara, tem é rosto
negro na sala de branco
só serve pra dar desgosto
Quando eu fiz estes versos
com a minha rabequinha
procurei o negro na sala
já estava na cozinha
de volta queria entrar
na porta da camarinha
– FIM –Apreciem meus leitores
uma forte discussão
que tive com Zé Pretinho
um cantador do sertão
o qual no tanger do verso
vencia qualquer questão
Um dia determinei
a sair do Quixadá
uma das belas cidades
do Estado do Ceará
fui até o Piauí
ver os cantores de lá
Hospedei-me em Pimenteira
depois em Alagoinha
cantei no Campo Maior
no Angico e na Baixinha
de lá tive um convite
para cantar na Varzinha
Quando cheguei na Varzinha
foi de manhã bem cedinho
então o dono da casa
me perguntou sem carinho:
cego, você não tem medo
da fama do Zé Pretinho?
Eu lhe disse: não senhor
mas da verdade eu não zombo
mande chamar esse preto
qu`eu quero dar-lhe um tombo
ele vindo, um de nós dois,
hoje há de arder o lombo
O dono da casa disse:
Zé Preto pelo comum
dá em dez ou doze cegos
quanto mais sendo só um;
mandou um macumanzeiro
chamar José do Tucum
Chamou um dos filhos e disse:
meu filho, você vá já
dizer a José Pretinho
que desculpe eu não ir lá
e ele como sem falta
à noite venha por cá
Em casa do tal Pretinho
foi chegando o portador
foi dizendo: lá em casa
tem um cego cantador
o meu pai manda dizer
que vá tirar-lhe o calor
Zé Pretinho respondeu:
bom amigo é quem avisa
menino, dizei ao cego
que vá tirando a camisa
mande benzer logo o lombo
que eu vou dar-lhe uma pisa
Tudo zombava de mim
eu ainda não sabia
que o tal José Pretinho
vinha para a cantoria
às cinco horas da tarde
chegou a cavalaria
O preto vinha na frente
todo vestido de branco
seu cavalo encapotado
com um passo muito franco
riscaram de uma só vez
todos no primeiro arranco
Saudaram o dono da casa
todos com muita alegria
o velho bem satisfeito
folgava alegre e sorria
vou dizer o nome do povo
que veio pra cantoria
Vieram o Capitão Duda
Tonheiro e Pedro Galvão
Augusto Antônio Feitosa
Francisco Manoel Simão
senhor José Carpinteiro
Francisco e Pedro Aragão
O José da Cabeceira
e seu Manoel Casado
Chico Lopes, Pedro Rosa
e Manoel Bronzeado
Antônio Lopes de Aquino
e um tal de “Pé Furado”
José Antônio de Andrade
Samuel e Jeremias
senhor Manoel Tomás
Manduca João de Ananias
e veio o vigário velho
cura de três freguesias
Foi dona Meridiana
do Grêmio das Professoras
essa levou duas filhas
bonitas e encantadoras
essas eram na Igreja
as mais exímias cantoras
Foi também Pedro Martins
Alfredo e José Raimundo
senhor Francisco Palmeira
e João Sampaio Segundo
e um grupo de rapazes
do batalhão vagabundo
Levaram o negro pra sala
e depois para a cozinha
lhe ofereceram um jantar
de doce, queijo e galinha
para mim veio um café
com uma magra bolachinha
Depois trouxeram o negro
e colocaram no salão
assentado num sofá
com a viola na mão
junto a uma escarradeira
para não cuspir no chão
Ele tirou a viola
dum saco novo de chita
e cuja viola estava
toda enfeitada de fita
ouvi as moças dizendo:
grande viola bonita!
Então para me sentar
botaram um pobre caixão
já velho, desmantelado
desses que vêm com sabão
eu sentei, ele envergou
e me deu um beliscão
Eu tirei a rabequinha
dum pobre saco de meia
já meio desconfiado
por estar em terra alheia
ouvi as moças dizendo:
meu Deus, que rabeca feia!
Um disse a Zé Pretinho:
a roupa do cego é suja
bote três guardas na porta
para que ele não fuja
cego feio assim de óculos
só parece uma coruja
Dissera o capitão Duda
como homem mui sensato:
vamos fazer uma bolsa
botem o dinheiro no prato
que é mesmo que botar
manteiga em venta de gato
Disse mais: eu quero ver
Pretinho espalhar os pés
e para os dois cantadores
tirei setenta mil réis
mas vou inteirar oitenta
da minha parte dou dez
Me disse o capitão Duda:
cego, você não estranha
este dinheiro do prato
eu vou lhe dizer quem ganha
pertence ao vencedor
nada leva quem apanha
Nisso as moças disseram:
já tem oitenta mil réis
porque o capitão Duda
da parte dele deu dez
se encostaram a Zé Pretinho
e botaram mais três anéis
Então disse Zé Pretinho:
de perder não tenho medo
este cego logo apanha
falo sem pedir segredo
tendo isto como certo
botou os anéis no dedo
Afinemos os instrumentos
entremos em discussão
o meu guia disse a mim
o negro parece o cão
tenha cuidado com ele
quando entrar em questão
Eu lhe disse seu José
sei que o senhor tem ciência
parece que és dotado
da Divina Providência
vamos saudar o povo
com a justa excelência
P – Sai daí, cego amarelo
cor de couro de toucinho
um cego da tua forma
chama-se abusa vizinho
aonde eu botar os pés
cego não bota o focinho
C – Já vi que seu Zé Pretinho
é um homem sem ação
como se maltrata outro
sem haver alteração
eu pensava que o senhor
possuísse educação
P – Esse cego bruto hoje
apanha que foca roxo
cara de pão de cruzado
testa de carneiro mocho
cego, tu és um bichinho
que quando come vira o coxo
C – Seu José, o seu cantar
merece ricos fulgores
merece ganhar na sala
rosas e trovas de amores
mais tarde as moças lhe dão
bonitas palmas de flores
P – Cego, eu creio que tu és
da terra do sapo sunga
cego não adora Deus
o Deus de cego é calunga
aonde os homens conversam
o cego chega e resmunga
C – Zé Preto não me aborreça
com o teu cantar ruim
o homem que canta bem
não trabalha em verso assim
tirando as faltas que tem
botando em cima de mim
P – Cala-te, cego ruim
cego aqui não faz figura
cego quando abre a boca
é uma mentira pura
o cego quanto mais mente
inda mais sustenta e jura
C – Este negro foi cativo
por isso é tão positivo
quer ser na sala de branco
exagerado e ativo
negro de canela fino
todo ele foi cativo
P – Dou-te uma surra
de cipó e urtiga
te furo a barriga
mais tarde tu urra
hoje o cego esturra
pedindo socorro:
sai dizendo: eu morro
meu Deus, que fadiga!
por uma intriga
eu de medo corro
C – Se eu der um tapa
num nego de fama
ele come lama
dizendo que é papa
eu rompo-lhe o mapa
lhe rasgo de espora
o negro hoje negro chora
com febre e com íngua
eu deixo-lhe a língua
com um palmo de fora
P – No sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o coro eu tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz mais duma mala
C – Negro, és monturo
molambo rasgado
cachimbo apagado
recanto de muro
negro sem futuro
perna de tição
boca de purrão
beiço de gamela
venta de moela
moleque ladrão
P – Vejo a cousa ruim
o cego está danado
cante moderado
que não quero assim;
olhe para mim
que sou verdadeiro
sou bom companheiro
canto sem maldade;
eu quero a metade
cego, do dinheiro
C – Nem que o negro seque
a engolideira
peça a noite inteira
qu`eu não lhe abreque
mas este moleque
hoje dá pinote
boca de bispote
venta de boeiro
tu queres dinheiro
eu dou-te chicote
P – Cante mais moderno
Perfeito e bonito
como tenho escrito
cá no meu caderno
sou seu subalterno
embora estranho
creio que apanho
e não dou um caldo
lhe peço, Aderaldo
reparta o ganho
C – Negro é raiz
que apodreceu
casco de judeu
moleque infeliz
vai pra teus país
senão eu te surro
dou-te até de murro
te tiro o regalo
cara de cavalo
cabeça de burro
P – Fale de outro jeito
com melhor agrado
seja delicado
cante mais perfeito
olhe, eu não aceito
tanto desespero
cante mais maneiro
com verso capaz
façamos e paz
e reparta o dinheiro
C – Negro careteiro
eu rasgo-te a giba
cara de guariba
pajé feiticeiro
queres dinheiro
barriga de angu
barba de quandu
camisa de saia
te deixo na praia
escovando urubu
P – Eu vou mudar a toada
pra uma que mete medo
nunca encontrei contador
que desmanchasse esse enredo
é 1 dedo, é 1 dado, é um dia
é um dia, é um dado, é 1 dedo
C – Zé Preto, este teu enredo
te serve de zombaria
tu hoje cegas de raiva
o diabo será teu guia;
é um dia, é um dado, é 1 dedo
é 1 dedo, é 1 dado, é um dia
P – Cego, respondeste bem
como tivesse estudado
eu também da minha parte
canto verso aprumado;
é 1 dado, é 1 dedo, é 1 dia
é 1 dia, é 1 dedo, é 1 dado
C – Vamos lá, José Pretinho
que eu já perdi o medo
sou bravo como um leão
sou forte como penedo
é 1 dedo, é 1 dia, é 1 dado
é 1 dado, é 1 dia, é 1 dedo
P – Cego, agora puxa uma
das tuas belas toadas
pra ver se estas moças
dão algumas gargalhadas
quase todo povo ri
só as moças estão caladas
C – Amigo José Pretinho
eu não sei o que será
de você no fim da luta
porque vencido já está;
quem a paca cara compra
a paca cara pagará
P – Cego, estou apertado
que só um pinto no ovo
estás cantando aprumado
e satisfazendo ao povo
este seu tema de paca
por favor diga de novo
C – Disse uma e digo dez
no cantar não tenho pompa
presentemente não acho
quem o meu mapa rompa;
paca cara pagará
quem a paca cara compra
P – Cego, teu peito é de aço
foi bem ferreiro que fez
pensei que o cego não tinha
no  verso tal rapidez
cego, se não for massada
repita a paca outra vez
C – Arre com tanta pergunta
deste negro capivara
não há quem cuspa pra cima
que não lhe caia na cara
quem a paca cara compra
pagará a paca cara
P – Agora, cego, me ouça
cantarei a paca, já
tema assim é um borrego
no bico dum “carcará”
quem a cara cara compra
caca caca cacará
Houve um trovão de risadas
pelo verso do Pretinho
o capitão Duda disse:
arreda pra lá, negrinho
vai descansar teu juízo
que o cego canta sozinho
Ficou vaiado o Pretinho
aí eu lhe disse: me ouça
José, quem canta comigo
pega devagar na louça
agora o amigo entregue
o anel  de cada moça
Desculpe, José Pretinho
se não cantei a seu gosto
negro não tem pé, tem gancho
não tem cara, tem é rosto
negro na sala de branco
só serve pra dar desgosto
Quando eu fiz estes versos
com a minha rabequinha
procurei o negro na sala
já estava na cozinha
de volta queria entrar
na porta da camarinha
– FIM –